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Capítulo 4 – Uma fagulha e uma brisa
O céu estava limpo, as nuvens
brancas eram umas das poucas coisas que se via além do grande e belo manto
azul. Os raios de sol destacavam as cores da bandeira de Venturia. O amarelo
representativo do vento e o cinza do símbolo brilhavam aos olhos de uma
garotinha, que estava sentada a sombra de uma macieira. Seus óculos refletiam a
beleza existente no reino do vento. Ela descansava para fazer uma viagem até
Flamia, o reino do fogo. O motivo? Seu tio precisava de uma espada nova, e iria
comprar uma do melhor ferreiro de lá, Joshua Lóris.
_ Lindsay! Vamos indo! – um
homem gritou.
_ Já estou indo tio!
No continente vermelho, Joshua
Lóris treinava seu filho, Joey, na arte do fogo.
_ Vai Joey, se concentra meu
filho!
_ Eu já disse que não consigo –
gritou o filho do ferreiro – prefiro treinar com a espada, dá menos trabalho.
Joshua deu um tapa na cabeça do
filho, que reagiu gritando. “Um Chama tem que aprender a controlar o fogo. Você
não passa nem no teste infantil!” criticou o pai.
_ Mas pai, minha habilidade é
com a espada e na luta “mano-a-mano”.
_ Habilidades? Você só pegou na
espada para fugir da escola de controle! – retrucou o velho senhor – e já faz
quatro anos que isso aconteceu. Você tem 13 anos Joey, e ainda não controla nem
uma fagulha. Tem que se esforçar mais meu filho.
_ Até parece! Eu, quando tento
controlar o fogo, sou zoado por todos na classe.
_ Aí você bate neles?! Foi isso
que te ensinei? Já te falei pra não se esquentar a toa. Isso não leva a nada.
_ Sou um Chama, sou esquentado
por natureza – falou com escárnio – e como vou controlar o fogo se não me
esquentar?
Joshua se enfureceu e começou a
correr atrás do filho. Este sai correndo, entra na sala, pega sua espada e pula
a janela. Ainda fugindo do pai, ele grita: “Ué? Você não falou que não era pra
ficar esquentado do nada? HEHE!”.
Joey foi até o centro de Flame
Rose, vila a 50 km da capital, FireProof. Chegando lá, olhou de um lado para o
outro e, não viu ninguém. “Aconteceu algo aqui?” pensou o jovem Chama. De
repente se ouviu um grito ali perto.
_ Solta a minha filha! Em pleno
ano de 4075 vocês ainda têm essa idéia de combate entre elementais?
Enquanto Joey se aproximava de
uma roda onde muitas pessoas se agrupavam para pegar uma menina, que aparentava
ter seus 12 anos. “Se afastem dela, ou eu terei que usar minha espada” gritou o
homem ao lado da menina. Ao desembainhar a espada e se atirar para ferir alguém,
Joey se movimentou rapidamente e o parou com sua espada.
_ Se você ferir alguém, aí sim
ela vai se machucar! – falou ele – O que você quer aqui em Flamia, Aero?
_ Quer conversar agora ou vai
lutar “muleque”? – o homem estava cheio de ódio nos olhos – Vou te matar por
ameaçar a mim e a minha filha.
_ Mas quem ameaçou quem aqui? –
Joey se esquivou de um ataque, mas não conseguiu se desviar do seguinte e é
ferido no rosto com a espada – AHHHHHH!
_ Garoto tolo! Como você pode
derrotar a espada feita pelo maior ferreiro deste planeta? – o homem gritava
presunçosamente.
O homem defere um ataque, porém
é surpreendido por um soco em chamas. Joey olhou atentamente para o homem, que
voou alguns metros após ter sido socado. Mas seus olhos voltaram imediatamente para
o dono do soco e exclamou:
_ Pai!
_ Todos vocês, saiam já deste
local! Não tem nada para ver aqui.
_ Mas, Sr. Lóris, ele é um Aero
– gritaram algumas pessoas- o que o senhor irá fazer?
_ Ele é um Aero e nós somos
Chamas! Nenhum outro povo destruiu tanto quanto o nosso. Vocês não têm o
direito de discriminar esses estrangeiros! Como eu já disse, saiam!
As pessoas foram se afastando
uma a uma, sem entender o porquê da reação do velho ferreiro. O filho se
aproximou da garota deitada no chão. A garota tinha um cabelo comprido, loiro
escuro, usava óculos, mas estes não escondiam a sua beleza. O que Joey sentiu
ao ver a menina foi uma mistura de paixão e curiosidade. Ao mesmo tempo, Joshua
via como estava o homem da espada.
_ Você está bem Ray? – perguntou
ao homem – Desculpe-me pelo soco, mas você machucou meu filho.
O homem atordoado olhou para
Joshua e teve um surto. “Lóris?!” exclamou o homem.
_ É Ray, sou eu! HEHE! – disse
Joshua com uma expressão juvenil.
Os dois se abraçaram, o que
surpreendeu Joey que olhava para o lado para não ficar encarando os seios da
menina desacordada.
_ Pessoal o que eu faço com ela?
– perguntou um pouco sem jeito.
_ Lindsay! – gritou Ray – Acorda
menina, não desmaie a toa toda hora!
“Toda hora!” pai e filho
disseram em uníssono, o que soou como um espanto momentâneo.
_ Está me dizendo que ela
desmaia sempre? – Joshua perguntou.
_ Quase sempre. Ela tem uma
saúde um pouco frágil e se assusta com qualquer coisa – disse Ray.
Os dois Chamas se entreolharam e
começaram a andar em direção de Ray.
_ Você quer dizer que ninguém
estava fazendo mal nenhuma a ela? – fala Joey – Mas sim que ela desmaiou a toa?
_ E você machucou meu filho por
razão nenhuma? – Joshua falava com uma voz furiosa.
_ De que maneira eu chamaria sua
atenção, senão fazendo um alvoroço? – Ray disse dando uma risadinha – Você me conhece
Lóris.
A impressão era que Ray seria
linchado pelos dois naquele momento, mas perceberam que a menina acordava, e
não fizeram nada. Quando acordou, Lindsay levou um susto com os Chamas que
estavam ali, mas não desmaiou novamente. Ray a contou o que tinha acontecido,
que ele havia a assustado para poder trazer o ferreiro até aquele local, e
Joshua concordou em levá-los para sua casa e cuidar dos ferimentos dos dois e
de seu filho. No caminho, Joey veio conversando com a garota de Venturia. Algo
entre os dois fazia parecer como que eles se conhecessem há muito tempo.
Apresentavam certa conexão em seus pensamentos.
_ “Peraê”! Quer dizer que ele
não é seu pai? – perguntou Joey espantado.
_ Não. – respondeu ela
tranquilamente – Ele é meu tio, irmão de minha mãe. Ele cuida de mim desde que
meus pais foram mortos.
_ Hum! Entendi. Minha mãe também
foi morta – a tranqüilidade em sua voz indicava a confiança que os dois já
possuíam um com o outro – Foi um RAKSASA de elefante.
De repente Joey abaixou a
cabeça, seu olhar feliz se entristeceu ao lembrar-se da morte da mãe. “Você
está bem, Joey?” perguntou a garota do reino do vento.
_ Estou sim. É que já faz cinco
anos desde que isso aconteceu.
_ Meus pais morreram há sete
anos. Eu tinha cinco anos na época, então não me lembro muito bem do que
aconteceu – Lindsay falava com um sorriso para alegrar o Chama – Mas, mudando
de assunto. Por que você quis lutar com espada? Pensei que o orgulho de um
Chama fosse o controle do fogo em combates.
_ Fogo não fez nada contra uma
carcaça de elefante – Joey estava um pouco enfurecido – A única coisa que feriu
aquele monstro que matava minha mãe, foram as lâminas de um Aero que passeava
por aqui na época. Infelizmente o RAKSASA conseguiu fugir, e minha mãe já não
tinha mais tempo e faleceu. Naquele instante eu perdi a confiança no controle
de fogo e comecei a treinar com a espada. Mas sem ajuda evolui muito pouco, já
que levei esse corte na cara.
Lindsay passou a mão no rosto
machucado de Joey, se aproximou e deu um beijo na área do corte. Joey corou,
não havia sentido aquilo desde que sua mãe havia falecido: AMOR. Um sentimento
quente e confortável. Um sorriso de alegria surgiu instantaneamente em sua
face. Tinham acabado de chegar a casa, ela olhou para ele e correu para dentro.
Joey continuou lá fora por mais alguns minutos, até seu pai o chamar para
tratar as feridas. Já era noite e todos estavam tratados, eles apenas jantaram
e foram dormir.
Na manhã seguinte, Joey acordou
com o barulho de um martelo batendo no ferro. Foi até o cômodo metalúrgico
atrás da casa. Seu pai estava consertando a espada de Ray, e de tão concentrado
que estava não percebeu a entrada do filho no cômodo.
_ É assim que se faz uma espada
então? – disse o garoto assustando o pai.
_ AH! Joey! – disse o pai após o
susto – Sim, é assim. Tenho que reforçar o núcleo da espada de modo que ela não
se quebre novamente. Um núcleo forte e resistente significa vitória.
_ Mas é preciso treinar também
para vencer! – Joey falou dando uma indireta ao pai.
_ Eu posso te treinar enquanto
estiver aqui! – disse Ray entrando de surpresa no cômodo – Você tem um ótimo
domínio da espada. Impressionou-me aquela sua esquiva.
_ Ray, eu não acho que seja uma
boa idéia o Joey praticar esgrima, ele precisa aprender a usar o fogo – Joshua
falou.
_ Pai, eu já disse que não vou
controlar fogo! – retrucou o garoto com raiva – E o senhor sabe bem disso, já
que o senhor tentou atacar o RAKSASA de elefante com fogo e ele nem recuou. O
controle de fogo do qual o senhor tanto se orgulha, não salvou a minha mãe!
A raiva de Joey penetrou os
ouvidos do pai, que deixou cair uma lagrima do olho esquerdo. O garoto saiu
correndo esbarrando em Ray, que se voltou para o ferreiro e disse:
_ Deixe que eu o treine. Ele não
sabe a verdade sobre o que aconteceu com a morte da Sandra. Você terá que
contar pra ele quando a hora chegar, mas por enquanto, me deixe treiná-lo.
Joshua ainda chorava, mas
continuou a forjar a espada. “Acho que a Sandra iria querer assim. Cuide dele
Ray” disse o ferreiro engolindo o choro. Ray assentiu com a cabeça e saiu.
Enquanto isso, Joey estava na estrada para o centro, quando apareceram alguns
garotos. Um deles, o que seria o líder, olhou para ele e disse:
_ Olha só quem vemos! Joseph
Lóris, o “achama”.
_ Só porque “a” significa “não”,
isso não quer dizer que você pode criar uma palavra pra me denominar Damian –
Joey falou ignorando o grupo – Deixa de ser burro e se achar o rei da cocada
queimada.
_ James Damian III pra você, Lóris!
– gritou enfurecido o rapaz – Eu sou o futuro rei de Flamia, e você apenas o
filho de um ferreiro que nem sabe controlar o fogo.
_ Idiota! Não sabe controlar o
fogo! Que vergonha pros Chamas! – diziam o resto do grupo.
Joey, ao ouvir essas palavras, se
virou com ódio no olhar. “Não se esquente a toa Joey” foi a única coisa que
veio a sua mente naquele momento. Pensar nas palavras do pai quando queria
matar qualquer um, não estava nos planos dele. Foi voltando a seu caminho
original quando sentiu que Damian preparava uma bola de fogo para atirar contra
ele.
_ Agora você pediu Damian! –
gritou Joey.
Desembainhou a espada para se
defender, mas foi detido por Ray. O espadachim esperou o ataque da bola de
fogo, e o parou com um sopro.
_ Esse é o poder do príncipe de
Flamia? – zombou Ray – “Ta” precisando de motivação pro seu fogo filho? Eu
tenho revista pornô se Vossa Alteza quiser.
Damian estava surpreso com o
poder do Aero e, furioso com as afrontas e zombarias, tentou dar um soco em
Ray. Mas este se defendeu e revidou com uma cotovelada na boca do estomago do
príncipe. Os outros do bando, que tinha cerca de 20 anos cada um, foram ajudar
o seu líder e para bater no homem que o deferiu o soco. Todos foram derrotados.
_ Joey, acorda cara! Seu pai me
deixou treiná-lo – disse Ray.
O garoto tinha acompanhado toda
a situação, e estava pasmo com tudo.
_ Hã?! Que você falou?
_ Seu pai me deixou te treinar.
Agora fecha a boca e vamos começar.
_ Mas o que você falou pra ele?
Ele não cede tão fácil. Você o subornou? Ou será que aconteceu um milagre? Bom,
de qualquer forma, obrigado – Joey sorriu ao dizer isso.
_ Não me agradeça. – Ray olhava
seriamente para o garoto enquanto falava – Primeira regra do seu treino:
RESPEITO.
_ Respeito?
_ Sim! Respeite quem mereça e
você será respeitado. Começando com seu pai.
_ Eu sei que fui rude com ele,
mas ele nunca iria me deixar treinar com a espada!
_ Mas ele deixou, não foi?! –
Ray falava num tom de voz grave e sábio – Depois do treino de hoje, se você não
der o devido respeito a ele, eu não sou mais seu treinador.
O garoto ficou apreensivo com as
palavras do espadachim. Seu rosto mostrava que sabia que o respeito deveria ser
a base do ser humano.
_ Como aprendiz de espadachim,
esse é o meu primeiro passo – Joey falava seriamente – e eu vou acatar com as
conseqüências caso eu falhe.
_
Bom começo – disse Ray – agora, EN GARDE!


